
Há algo de sagrado no mês de novembro em Minas Gerais. É quando as primeiras chuvas de verão lavam o telhado das casas coloniais e, quase como um milagre cronometrado, os troncos das jabuticabeiras explodem em pequenos botões brancos que logo se tornam pérolas negras.
A 39ª edição do Festival de Jabuticaba de Sabará, encerrada há algumas semanas, não foi apenas uma feira gastronômica; foi a confirmação de uma identidade. Cerca de 200 mil pessoas caminharam pelas pedras pé-de-moleque do Centro Histórico para testemunhar o que chamamos na gastronomia de terroir vivo.
O Terroir Sabarense: Por que é diferente?
Para o leigo, jabuticaba é jabuticaba. Para nós, cozinheiros e estudiosos, a Sabará (nome da variedade que batiza a cidade) é única. A Indicação Geográfica (IG) conquistada pela região não é enfeite. A fruta daqui possui uma casca mais fina e uma concentração de doçura (Brix) que equilibra perfeitamente a adstringência natural dos taninos presentes na casca.
É essa alquimia natural que permite que a fruta saia do pé e vá para a panela transformar-se em muito mais do que geleia.
Inovações de 2025: A Versatilidade da Fruta
Caminhando pelas barracas da Asprodejas (Associação dos Produtores de Derivados), vimos a técnica culinária sendo desafiada. Se antigamente o licor e a compota reinavam sozinhos, 2025 foi o ano da ousadia nas texturas e contrastes.
- A Quebra de Paradigma (O Hot Roll): O destaque de curiosidade técnica este ano foi a fusão da culinária asiática com a mineira. O Hot Roll servido com redução de jabuticaba (no lugar do tradicional molho tarê) provou ser uma aula de equilíbrio: a acidez da fruta cortou a gordura da fritura, enquanto o dulçor complementou o arroz. Um umami mineiro inesperado.
- Texturas (A Pipoca Gourmet): Outra estrela que gerou filas foi a pipoca gourmet caramelizada com jabuticaba. Aqui, a ciência do açúcar atingiu o ponto de bala perfeito, envolvendo o milho em uma camada roxa crocante, sem amargar — um risco comum quando se trabalha com frutas ricas em pectina e pigmentos sensíveis ao calor.
Embora os concursos oficiais tenham julgado categorias clássicas como “Melhor Licor” e “Melhor Geleia” (com julgamento técnico realizado ainda em outubro no Solar do Padre Correia), para o público que lotou as praças Melo Viana e Santa Rita, o verdadeiro prêmio foi a criatividade.
A Atmosfera: O “Mise en Place” da Cidade
O festival é um exemplo de como a gastronomia une gerações. Não se trata de uma linha de produção industrial. Atrás de cada balcão, víamos a estrutura familiar: a avó que detém o segredo da receita do licor, o filho que organiza a logística e o neto que cuida do Instagram e das vendas.
O cenário das árvores centenárias sombreando as barracas criou um ambiente acolhedor, apesar do calor típico de dezembro. A “Cozinha Show” trouxe chefs renomados para ensinar ao vivo, democratizando técnicas que antes ficavam restritas aos restaurantes, provando que a alta gastronomia pode (e deve) falar a língua do povo.
A Lição da Jabuticabeira: Uma Reflexão de Fé
No Fala Chef, acreditamos que a natureza é o primeiro livro de Deus. A jabuticabeira é uma professora de paciência. Ela demora anos, às vezes mais de uma década, para dar a primeira colheita farta. Ela não tem pressa; ela respeita o tempo do Criador.
O Festival de 2025 foi um lembrete de que as coisas boas — sejam um licor envelhecido ou um propósito de vida — exigem tempo de maturação. Ver a cidade reunida celebrando a colheita nos faz lembrar do Salmo que diz: “Abres a tua mão, e fartas de bens tudo o que vive”. A jabuticaba é esse bem, dado gratuitamente pela terra, transformado pelo trabalho humano em cultura e sustento.
Veredito e Dica para 2026
Se você perdeu a edição deste ano, comece a se planejar agora. O Festival de Jabuticaba não é apenas sobre comer; é sobre entender a alma de Minas Gerais.
- O que levar para casa: Não saia de lá apenas com a fruta in natura (que fermenta rápido). Invista nos produtos de guarda: os licores de 2025 estarão ainda melhores em 2026.
- Dica do Chef: Procure pelos produtos com o selo da Asprodejas para garantir que está apoiando a produção local autêntica.
E você? Esteve em Sabará este ano? Provou a famosa pipoca ou o hot roll? 👇 Conte nos comentários qual foi sua maior descoberta gastronômica do festival!